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A adulteração do ARLA 32 voltou a aparecer nas fiscalizações realizadas em rodovias brasileiras. Em agosto, um caminhão foi abordado na PR-473, no Oeste do Paraná, após os policiais identificarem no painel uma indicação de falha no sistema de pós-tratamento dos gases. A análise do conteúdo do reservatório apontou a presença de substâncias incompatíveis com o produto utilizado pelo sistema SCR. O caso se soma a outras ocorrências registradas pela fiscalização federal e estadual nos últimos anos e chama atenção para uma prática que não se limita à tentativa de economizar no abastecimento.

Para entender o problema, é preciso lembrar que o ARLA 32 não é um aditivo colocado no veículo como complemento ao combustível. Nos veículos diesel equipados com SCR, ele faz parte do próprio sistema de controle de emissões. Trata-se de uma solução de ureia de alta pureza em água desmineralizada, com concentração nominal de 32,5%, utilizada no tratamento dos gases de escapamento para reduzir a emissão de óxidos de nitrogênio, os NOx. O uso do sistema passou a integrar os veículos pesados produzidos no Brasil a partir da fase mais rigorosa do Proconve, em vigor desde 2012.

O funcionamento depende da qualidade da solução. O sistema foi projetado para dosar uma substância com características determinadas, e qualquer alteração nessa composição interfere no processo. Água comum, ureia inadequada ou contaminantes minerais podem alterar a concentração da solução e introduzir elementos que não deveriam circular pelo reservatório, pela linha de alimentação e pelo sistema de dosagem.

Esse é um dos principais problemas do ARLA 32 adulterado. A fraude pode ser descoberta na fiscalização, mas seus efeitos começam antes disso. Segundo levantamento técnico do Inmetro sobre a fiscalização da concentração de ureia no produto, entre os problemas associados à adulteração estão o aumento das emissões de NOx, a formação de depósitos em injetores e catalisadores, perda de desempenho, aumento do consumo e, em determinadas situações, danos que exigem a substituição de componentes do sistema.

Não existe, portanto, uma relação automática entre uma falha no painel e a conclusão de que o produto foi adulterado. Sensores, bombas, injetores, catalisadores e outros componentes também podem apresentar defeitos. Um diagnóstico sério precisa distinguir uma falha mecânica ou eletrônica de um problema relacionado à qualidade do fluido utilizado. O que as ocorrências recentes demonstram é que a condição do ARLA 32 passou a ser, ela própria, objeto de verificação técnica.

A regulamentação brasileira prevê expressamente a fiscalização do reservatório. Entre as situações que podem caracterizar a ineficiência ou inoperância do equipamento obrigatório estão a ausência de ARLA 32, a presença de água ou outro líquido e a utilização de produto adulterado ou irregular. A verificação pode ser feita, entre outros métodos, por refratômetro ou com o reagente Negro de Eriocromo T.

O refratômetro permite medir a concentração de ureia na solução. Já o reagente é utilizado como um indicativo qualitativo de adulteração. São procedimentos que permitem à fiscalização ir além da simples inspeção visual do reservatório. A adulteração, portanto, não depende de uma confissão do condutor ou da existência de uma modificação evidente no veículo para ser investigada.

Também não se trata de um problema restrito ao uso do produto pelo motorista ou pela transportadora. Em 2024, uma operação conjunta da PRF, Ibama, Cetesb, Sefaz/SP e Ipem/SP encontrou irregularidades na própria produção de ARLA 32, incluindo o uso de ureia agrícola, matéria-prima não permitida para essa finalidade. A operação resultou em multas, apreensões e suspensão de atividades de empresas fiscalizadas. O dado é relevante porque mostra que a qualidade precisa ser observada ao longo de toda a cadeia, da fabricação e distribuição até o armazenamento e o abastecimento do veículo.

Para quem administra uma frota, esse controle começa pela procedência. Produto sem identificação adequada, origem desconhecida ou armazenado sem os cuidados necessários acrescenta um risco que dificilmente será percebido apenas no momento do abastecimento. Uma vez introduzida no sistema, uma solução contaminada pode exigir uma investigação técnica para determinar a extensão do problema e quais componentes foram afetados.

A rastreabilidade também ganha importância nesse processo. Manter registros de fornecedores e lotes, especialmente em operações maiores, facilita a identificação da origem do produto caso uma falha seja detectada em mais de um veículo. Não substitui a manutenção e o diagnóstico, mas reduz a incerteza quando é necessário investigar uma ocorrência.

Há ainda uma questão frequentemente ignorada quando se discute ARLA 32 apenas pelo preço: o custo do produto representa uma parte da operação, enquanto uma intervenção corretiva no sistema SCR pode envolver parada do veículo, diagnóstico, limpeza e substituição de componentes. A decisão de utilizar um produto fora de especificação pode, assim, deslocar uma economia imediata para um custo operacional muito maior.

O aumento das fiscalizações acrescenta outra dimensão ao problema. Veículos a diesel precisam circular dentro dos padrões de controle de emissões, e irregularidades relacionadas ao SCR podem resultar em autuação e retenção para regularização. Dependendo das circunstâncias verificadas pelas autoridades, o caso também pode ser encaminhado para apuração ambiental. Em janeiro de 2026, por exemplo, a PRF registrou no Maranhão um caso de ARLA 32 contaminado associado à ineficiência do sistema de controle de poluição e informou que a ocorrência seria comunicada ao órgão ambiental competente.

No fim, a discussão sobre ARLA 32 adulterado não deveria começar pela fiscalização, embora seja nela que o problema muitas vezes se torna visível. Ela começa pela manutenção das condições para que um sistema projetado para controlar emissões funcione como foi concebido.

A qualidade do produto, sua procedência e o cuidado no armazenamento fazem parte desse processo. Em veículos pesados, cada sistema depende do funcionamento adequado dos demais, e a manutenção preventiva não se resume à troca de peças ou filtros em intervalos determinados. Também envolve controlar aquilo que entra no veículo e compreender que um insumo fora de especificação pode comprometer componentes que, isoladamente, custam muito mais do que qualquer economia obtida no momento da compra.

Manutenção preventiva também começa pela escolha dos componentes certos. Filtros em boas condições ajudam a proteger sistemas, preservar o desempenho do veículo e reduzir o risco de paradas inesperadas.

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